Porque é importante trabalhar o tema “Brincar é coisa séria” com profissionais da educação infantil?
Falar que “brincar é coisa séria” na Educação Infantil não é um slogan bonito — é uma afirmação pedagógica, ética e humana.
Antes de tudo, brincar é um direito da criança. A própria Organização das Nações Unidas, por meio da Convenção sobre os Direitos da Criança, reconhece o brincar como parte fundamental do desenvolvimento infantil. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente reafirma esse direito. Garantir o brincar na escola é, portanto, garantir um direito da vida. Para além da lei, existe algo ainda mais profundo: o brincar é a linguagem da infância!
Quando escolhemos trabalhar na Educação Infantil, é como se comprássemos uma passagem para um país chamado “infância” e, nesse país, a língua oficial é o brincar.
A criança não diz: “Professor, converse comigo porque estou triste.” Ela chama para brincar. Não diz: “Preciso elaborar meus medos.” Ela dramatiza, inventa, cria personagens. O brincar é seu porta-voz. Por isso, todo educador da infância precisa aprender a escutar essa linguagem.
Somos anfitriões da vida. Acolhemos crianças que estão chegando ao mundo e precisamos recebê-las na sintonia que lhes é própria. E essa sintonia é o brincar. Ao brincar, a criança revela emoções, desejos, inseguranças, descobertas, conflitos e conquistas. O brinquedo, a imaginação e o faz de conta são formas legítimas de expressão.
Escutar o brincar é escutar a criança.
Outro ponto fundamental é compreender que, para a criança pequena, brincar e aprender são inseparáveis. Ela não divide sua experiência em “hora de brincar” e “hora de aprender”. Tudo o que ela vive como brincadeira é também aprendizagem. No jogo simbólico, aprende sobre relações sociais; nas construções, aprende sobre espaço e equilíbrio; nas cantigas, amplia linguagem; nas brincadeiras corporais, desenvolve coordenação e percepção de si. Aprender brincando torna a educação mais efetiva — porque significativa — e mais afetiva — porque atravessada por vínculo.
Isso exige do educador uma postura específica: disponibilidade. O professor da Educação Infantil não pode ter vergonha de sentar no chão, de entrar no universo imaginário, de assumir personagens, de rir junto, de se encantar. Quando o adulto se autoriza a brincar, constrói uma ponte de afetividade. E é nessa ponte que a confiança se estabelece e a aprendizagem floresce.
Trabalhar o tema “brincar é coisa séria” também significa validar o lúdico como forma legítima de aprendizagem no espaço escolar. Não se trata de “passar o tempo”, mas de organizar intencionalmente experiências ricas, respeitando as múltiplas formas de brincar:
•Brincar livre – quando a criança escolhe, cria regras, explora materiais e exercita autonomia.
•Brincar simbólico (faz de conta) – essencial para elaboração emocional e construção de identidade.
•Brincadeiras corporais e sensoriais – que desenvolvem consciência do corpo e percepção do mundo.
•Jogos com regras – que favorecem noções de cooperação, limites e convivência.
•Brincadeiras dirigidas com intencionalidade pedagógica – planejadas pelo professor para ampliar experiências e aprendizagens.
•Brincadeiras na natureza – que ampliam sensibilidade, imaginação e conexão com a vida.
Reconhecer essas dimensões é compreender que o brincar é um campo complexo de desenvolvimento cognitivo, social, emocional e ético.
Portanto, trabalhar essa temática na formação de educadores é fundamental para ampliar a consciência pedagógica. Não se trata de mudar o olhar, mas de aprofundá-lo. Trata-se de validar as atividades lúdicas como caminho legítimo e potente de aprendizagem. Trata-se de formar profissionais que compreendam que brincar não é intervalo do aprender — é o próprio modo de aprender na infância.
Quando a escola garante o direito de brincar, ela não está apenas oferecendo momentos agradáveis, está promovendo saúde emocional, desenvolvimento integral e dignidade à experiência infantil.
Brincar é coisa séria porque é a forma mais autêntica que a criança tem de existir, expressar-se e aprender.

Todo educador da infância que compreende isso passa a educar não apenas conteúdos — mas a própria vida que se manifesta no brincar.

 

Por: Luciana Queiroz Rodrigues Moreira
Brinquedista e coordenadora do núcleo da ABBri, Especialista em Educação Ambiental e Colaboradora do Instituto Superatum 

 

 

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